Saturday, February 17, 2007

DVDteca - Grandes Mestres do Cinema (4)

"Stalker" (1979) de Andrei Tarkovsky

“This is the most important moment of your lives. You have to know that here your most cherished wish will come true.The most sincere one.The one reached through suffering."

A queda de um meteorito dizima uma provincial russa. Há quem atibua a devastação a uma ruptura do 4º bunker. Os habitantes da região que viajaram até essa região, agora denominada a Zona desapareceram. Rumores de que na zona existe uma câmara interior, O Quarto que torna real o maior desejo de quem o alcançar. O exército sela a area com arame farpado e patrulhas vigiam o perímetro.Os desesperados e os infelizes continuam a aventurar-se pelos perigos da zona, guiados pelo Stalker (Aleksandr Kaidanovsky), cuja experiência lhe permite viajar sem ser detectado pela Zona. Foi treinado por um Stalker famoso, Porcupine, que se suicidou após uma viagem a A Zona. Um Escritor (Anatoli Solonitsyn) à procura de inspiração e aventura, e um Cientista (Nikolai Grinko ) à procura da Verdade juntam-se ao Stalker para uma incursão na Zona. Cedo se torna evidente que a Zona não é o maior obstáculo à concretização dos sonhos dos homens, mas sim a dúvida sobre qual o seu maior desejo. Assim, com a aproximação a O Quarto o medo e a incerteza da materialização de todos os seus anseios leva a uma auto-descoberta e revelação.

Stalker é visualmente sublime, metafórico, busca obcessiva pela essência da alma. Tema aliás recorrente em Tarkovsky, que encontramos em Solaris ou Nostalgia ( a cena em que o poeta Yankovski atravessa a piscina vazia com a vela, transportando a Luz do espírito humano ao som do Requiem de Verdi é transcendente) . Devaneio onírico, as barreiras e as dificuldades que separam o mundo paralelo de a Zona do exterior, separarm o Real do Metafísico. Todos os personagens estão envolvidos numa intense batalha espiritual, que sendo unica e pessoal para cada um deles, tem um objectivo comum: manter viva a chama do espírito humano.


Stalker nunca repete o mesmo caminho,mas o Cientista volta atrás para recuperar a sua mochila lançando a dúvida sobre os métodos do Stalker. Como se o susconsciente seja a negação dos desejos criando os seus limites e impedimentos à sua concretização.Quando finalmente chegam ao Quarto hesitam em prosseguir e não conseguem definir qual o seu mais íntimo desejo. Pelo chão vemos espalhados moedas, agulhas e icons, reflexo da procura da mente para a fuga da sua miséria. No final. Os poderes conferidos pela Zona revelam-se inconsequentes para os descobridores. Toda a grandeza estava afinal na própria Viagem.


O filme, o último de Tarkovsky na Rússia, foi rodado numa região atingida por um desastre nuclear à época não admitido pelas autoridades russas. Seis anos depois ocorria o desastre de Tcernobyl. Quase todos os intervenientes no filme já morreram, sendo que a causa mais provável do cancro que os vitimou, anos mais tarde seja a radiação a que estiveram expostos aquando da rodagem do filme. Tarkovsky, a sua mulher Larissa, Lyudmila Feiginova que fez a montagem, os fotógrafos Georgi Rerberg e Aleksandr Knyazhinsky, os actores Kaidanovsky, Anatoly Solonitsyn, Nikolai Grinko. Todos morreram poucos anos após a estreia do filme.

Para os que trabalhavam com Tarkovsky o seu génio inigualável também trazia dificuldades. As suas produções arrastavam-se durante anos, por vezes Tarkovsky decidia refilmar muitas das cenas quando já estava a editar o filme . Em Stalker aconteceu pior. Problemas com a película fizeram com que todo o filme tivesse de ser refilmado. Em todos os seus filmes apreciamos o seu estilo contemplativo, enfatizando a integração dos personagens com o mundo que os rodeia, através dos enquadramentos ou lentos movimentos de câmara. Os quatro elementos terra, ar , fogo e água sempre presentes. Animais, cães, enigmáticos. Edíficios em ruínas., vulneráveis à Natureza, como a neve no tecto da cathedral em Andrei Rubliov ou a chuva em Solaris . Os rostos, os grandes planos também marcam a obra de Tarkovsky. E a pintura. Duhrer em a Infância de Ivan, os ícones em Andrei Rubliov, Brueghel em Solaris, Da Vinci em O Espelho ou Piero della Francesca em Nostalgia.

Andrei Tarkovsky é o maior realizador russo de sempre, a par do grande Sergei Eisenstein. A sua estética, com ma nova dimensão do tempoe do espaço, o seu cinema poético, torna a sua obra um marco do cinema. Apesar de nunca abordar a situação política da URSS a metafísica presente Andrei Rublev (1966), O Espelho (1974) e Stalker (1979) não agradavam às autoridades soviéticas. Tarkovsky nasceu 1932 in Zavrzhe, na agora Bielorússia. O seu pai era poeta, citado em vários dos seus filmes, e a sua mãe era actriz, tendo participado em O Espelho.

Stalker foi premiado com o prémio do Jurí Ecuménico em Cannes em 1980 e com o prémio do Jurí do Público no Fantasporto em 1983. Creio que não foi exibido em Portugal nas salas comerciais.

DVD: Stalker (1979) de Andrei Tarkovsky. Na FNAC (€39.80) ou na amazon.uk (€12.96)

Outros filmes recomendados: Andrei Rubliov (1966),€ 39.50 FNAC €24.75 amazon, Solaris (1972),€ 17.46 na amazon, O Espelho (1974 )€11.65 na amazon ,€24.50 na FNAC Nostalgia (1983), 24.75€ na amazon

Para mergulhar em profundidade na obra de Tarkovsky por ele próprio, o Livro “Esculpir o Tempo”, € 22.50.